10 de Fevereiro foi o aniversário de
Brecht(1898).
O ANALFABETO POLÍTICO
Bertold Brecht (1898-1956)
O pior analfabeto
é o analfabeto político.
Ele não ouve, não fala,
nem participa dos acontecimentos políticos.
Ele não sabe que o custo da vida,
o preço do feijão, do peixe, da farinha,
do aluguel, do sapato e do remédio
dependem das decisões políticas.
O analfabeto político
é tão burro que se orgulha
e estufa o peito dizendo
que odeia a política.
Não sabe o imbecil que,
da sua ignorância política,
nasce a prostituta, o menor abandonado,
e o pior de todos os bandidos,
que é o político vigarista,
pilantra, corrupto e lacaio
das empresas nacionais e multinacionais.
terça-feira, 12 de fevereiro de 2013
terça-feira, 5 de fevereiro de 2013
COMO UM ROMANCE – DANIEL PENNAC
"O verbo ler não
suporta o imperativo. Aversão que partilha com alguns outros: o verbo ‘amar’...
o verbo ‘sonhar’... Bem, é sempre possível tentar, é claro. Vamos lá: ‘Me ame!’
‘Sonhe!’ ‘Leia!’ ‘Leia logo, que diabo, eu estou mandando você ler!’”
- Vá para o seu quarto
e leia!
Resultado?
Nulo.
Ele dormiu em cima do
livro. A janela, de repente, lhe pareceu imensamente aberta sobre uma coisa qualquer
tentadora. Foi por ali que ele decolou. Para escapar ao livro. Mas é um sono
vigilante: o livro continua aberto diante dele. E no pouco que abrimos a porta
de seu quarto, nós o encontramos sentado junto à escrivaninha, seriamente
ocupado em ler. Mesmo se nos aproximamos na ponta dos pés, da superfície de seu
sono ele nos terá escutado chegar.
- Então, não está
gostando?
Ele não vai nos
responder que não, isto seria um crime de lesa majestade. O livro é sagrado,
como é possível não gostar de ler? Não, ele vai dizer que as descrições são
longas demais.
Tranquilizados,
voltamos ao nosso aparelho de televisão. E é até possível que esta reflexão
suscite um apaixonante debate entre nós e os outros como nós...
- Ele acha as
descrições longas demais. É preciso entender, estamos no século do audiovisual,
evidentemente os romancistas do século dezenove tinham que escrever tudo...
- Mas isto não é razão
para pular a metade das páginas!
Não vamos nos cansar,
ele voltou a dormir.
Essa aversão pela
leitura fica ainda mais inconcebível se somos de uma geração, de um tempo, de
um meio e de uma família em que a tendência era nos impedir de ler.
- Mas pára de ler, olha
só, você vai estragar a vista!
- Sai, vai brincar um
pouco, está fazendo um tempo tão bonito!
- Apaga! Já é tarde!
É isso, o tempo estava
sempre bom demais para ler, ou então era a noite, escura demais.
Note-se que em ler ou
não ler, o verbo já era conjugado no imperativo. Mesmo no passado, as coisas
não davam certo. De um certo modo, ler, então, era um ato subversivo. À descoberta
do romance se juntava a excitação da desobediência familiar. Duplo esplendor!
Ah, a lembrança dessas horas de leitura roubadas, debaixo das cobertas, à luz
fraca de uma lanterna elétrica! Como Anna Karenina galopava depressa-depressa
para junto do seu Vronski, naquelas horas da noite! Eles se amavam, aqueles
dois, e isso já era lindo em si, mas eles se amavam contra a proibição de ler e
isso era ainda melhor. Eles se amavam contra pai e mãe, se amavam contra o
dever de matemática não terminado, contra a “dissertação” a preparar, contra o
quarto por arrumar, eles se amavam em vez de irem para a mesa, eles se amavam
antes da sobremesa, eles se preferiam à partida de futebol, à colheita de
cogumelos... eles se tinham escolhido e se preferiam a tudo mais... Ah, meu
Deus, o belo amor!
E como o romance era
curto.
COMO UM ROMANCE – DANIEL PENNAC
O verbo ler não
suporta o imperativo. Aversão que partilha com alguns outros: o verbo ‘amar’...
o verbo ‘sonhar’... Bem, é sempre possível tentar, é claro. Vamos lá: ‘Me ame!’
‘Sonhe!’ ‘Leia!’ ‘Leia logo, que diabo, eu estou mandando você ler!’”
Como um Romance é exatamente a relação que deveríamos ter com os
livros. Uma obra para apaixonados pela leitura, que sentem essa ânsia, esse desejo
de que todos deveriam se interessar pelo mundo dos livros, afinal ele é mágico.
Em Como um Romance (Rocco e L&PM, 2008, R$14), Daniel Pennac
(1944) fala sobre como as crianças são interessadas no mundo da leitura, em
aprender a ler, têm curiosidade nas histórias que seus pais contam ao pé da
cama antes de dormir. Mas ao crescer, a obrigação da leitura imposta pela
escola, faz com que essa vontade do desconhecido se torne cansativa, sem prazer.
No ensaio, os pais contam,
através da visão do casal, como a criança passa do amor aos livros para a
aversão total. Durante o processo, Pennac cita vários títulos e autores, a
forma do amor aos livros, o clamor para que sejam lidos. E o texto transmite
certo desespero, uma tristeza imensa pela falta da cultura da leitura, da
cumplicidade com o livro, torná-lo amigo, mas não guardar seus segredos,
gritá-los para que todos compartilhem de um mesmo prazer: ler.
Na página 69 temos uma triste
e real citação de Klaus Mann (autor de Mefisto), que pode descrever bem a
realidade da escola, também da brasileira, onde deveriam adquirir o gosto pela
leitura:
“Tudo que possuo de cultura literária adquiri fora da escola”.
A maioria aprende a ter desprezo
pelos livros e muitas vezes com incentivo em casa: “enquanto que hoje... Os adolescentes são clientes totais de uma
sociedade que os veste, os distrai, os alimenta, os cultiva: onde florescem os
mcdonald’s e as marcas de jeans, entre outros”.
Como um Romance foi publicado pela primeira vez em 1992, a primeira
edição brasileira data de 1993, apesar dos 20 anos que separam a primeira
edição do ano em que estamos, se faz totalmente atual. E também para aqueles
que leem, mas esqueceram do prazer que a leitura proporciona, o autor diz:
“Eles tinham simplesmente esquecido o que era um livro, aquilo que ele
tinha a oferecer. Tinham se esquecido, por exemplo, que um romance conta antes
de tudo uma história. Não se sabia que um romance deve ser lido como um
romance: saciando primeiro nossa ânsia por narrativas”.
“... eles não valorizam a criação, mas a reprodução de ‘formas’
preestabelecidas, porque são uma empresa de simplificação (quer dizer, de
mentira), quando o romance é a arte da verdade (quer dizer, de complexidade)
(...) Resumindo, uma literatura do ‘pronto para o consumo’, feita na fôrma e
que gostaria de nos amarrar dentro dessa mesma fôrma”, diz Pennac sobre os
maus romances, aqueles que são feitos para vender e sem nenhum amor por parte
do “autor”, como se dá hoje, tantos títulos e muitos sem nenhum sentido além da
busca incessante pelo dinheiro.
Há ironia sem dosagem quando
fala dos métodos:
“Não importa... ele intervém, bem a propósito, para nos lembrar que a
obsessão adulta do ‘saber ler’ não data de ontem... nem a estupidez dos achados
pedagógicos que se elaboram contra o desejo de aprender”.
sexta-feira, 16 de novembro de 2012
AO GÁS (O SENTIMENTO DE UM OCIDENTAL) - CESÁRIO VERDE
AO
GÁS
E
saio. A noite pesa, esmaga. Nos
Passeios
de lajedo arrastam-se as impuras.
Ó
moles hospitais! Sai das embocaduras
Um
sopro que arrepia os ombros quase nus.
Cercam-me
as lojas, tépidas. Eu penso
Ver
círios laterais, ver filas de capelas,
Com
santos e fiéis, andores, ramos, velas,
Em
uma catedral de um comprimento imenso.
As
burguesinhas do Catolicismo
Resvalam
pelo chão minado pelos canos;
E
lembram-me, ao chorar doente dos pianos,
As
freiras que os jejuns matavam de histerismo.
Num
cutileiro, de avental, ao torno,
Um
forjador maneja um malho, rubramente;
E
de uma padaria exala-se, inda quente,
Um
cheiro salutar e honesto a pão no forno.
E
eu que medito um livro que exacerbe,
Quisera
que o real e a análise mo dessem;
Casas
de confecções e modas resplandecem;
Pelas
vitrines olha um ratoneiro imberbe.
Longas
descidas! Não poder pintar
Com
versos magistrais, salubres e sinceros,
A
esguia difusão dos vossos reverberos,
E
a vossa palidez romântica e lunar!
Que
grande cobra, a lúbrica pessoa,
Que
espartilhada escolhe uns xales com debuxo!
Sua
excelência atrai, magnética, entre luxo,
Que
ao longo dos balcões de mogno se amontoa.
E
aquela velha, de bandós! Por vezes,
A
sua traîne imita um leque antigo, aberto,
Nas
barras verticais, a duas tintas. Perto,
Escarvam,
à vitória, os seus mecklemburgueses.
Desdobram-se
tecidos estrangeiros;
Plantas
ornamentais secam nos mostradores;
Flocos
de pós-de-arroz pairam sufocadores,
E
em nuvens de cetins requebram-se os caixeiros.
Mas
tudo cansa! Apagam-se nas frentes
Os
candelabros, como estrelas, pouco a pouco;
Da
solidão regouga um cauteleiro rouco;
Tornam-se
mausoléus as armações fulgentes.
"Dó
da miséria!... Compaixão de mim!..."
E,
nas esquinas, calvo, eterno, sem repouso,
Pede-me
sempre esmola um homenzinho idoso,
Meu
velho professor nas aulas de Latim!
Noite Fechada (Osentimento de um ocidental) - Cesário Verde
NOITE
FECHADA
Toca-se
às grades, nas cadeias. Som
Que
mortifica e deixa umas loucuras mansas!
O
Aljube, em que hoje estão velhinhas e criancas,
Bem
raramente encerra uma mulher de "dom"!
E
eu desconfio, até, de um aneurisma
Tão
mórbido me sinto, ao acender das luzes;
À
vista das prisões, da velha Sé, das Cruzes,
Chora-me
o coração que se enche e que se abisma.
A
espaços, iluminam-se os andares,
E
as tascas, os cafés, as tendas, os estancos
Alastram
em lençol os seus reflexos brancos;
E
a Lua lembra o circo e os jogos malabares.
Duas
igrejas, num saudoso largo,
Lançam
a nódoa negra e fúnebre do clero:
Nelas
esfumo um ermo inquisidor severo,
Assim
que pela História eu me aventuro e alargo.
Na
parte que abateu no terremoto,
Muram-me
as construções rectas, iguais, crescidas;
Afrontam-me,
no resto, as íngremes subidas,
E
os sinos dum tanger monástico e devoto.
Mas,
num recinto público e vulgar,
Com
bancos de namoro e exíguas pimenteiras,
Brônzeo,
monumental, de proporções guerreiras,
Um
épico doutrora ascende, num pilar!
E
eu sonho o Cólera, imagino a Febre,
Nesta
acumulação de corpos enfezados;
Sombrios
e espectrais recolhem os soldados;
Inflama-se
um palácio em face de um casebre.
Partem
patrulhas de cavalaria
Dos
arcos dos quartéis que foram já conventos;
Idade
Média! A pé, outras, a passos lentos,
Derramam-se
por toda a capital, que esfria.
Triste
cidade! Eu temo que me avives
Uma
paixão defunta! Aos lampiões distantes,
Enlutam-me,
alvejando, as tuas elegantes,
Curvadas
a sorrir às montras dos ourives.
E
mais: as costureiras, as floristas
Descem
dos magasins, causam-me sobressaltos;
Custa-lhes
a elevar os seus pescoços altos
E
muitas delas são comparsas ou coristas.
E
eu, de luneta de uma lente só,
Eu
acho sempre assunto a quadros revoltados:
Entro
na brasserie; às mesas de emigrados,
Ao
riso e à crua luz joga-se o dominó.
Ave Marias (O Sentimento de um Ocidental) - Cesário Verde
O SENTIMENTO DE UM
OCIDENTAL
I
AVE-MARIAS
Nas
nossas ruas, ao anoitecer,
Há
tal soturnidade, há tal melancolia,
Que
as sombras, o bulício, o Tejo, a maresia
Despertam-me
um desejo absurdo de sofrer.
O
céu parece baixo e de neblina,
O
gás extravasado enjoa-me, perturba-me;
E
os edifícios, com as chaminés, e a turba
Toldam-se
duma cor monótona e londrina.
Batem
os carros de aluguer, ao fundo,
Levando
à via-férrea os que se vão. Felizes!
Ocorrem-me
em revista, exposições, países:
Madrid,
Paris, Berlim, Sampetersburgo, o mundo!
Semelham-se
a gaiolas, com viveiros,
As
edificações somente emadeiradas:
Como
morcegos, ao cair das badaladas,
Saltam
de viga em viga, os mestres carpinteiros.
Voltam
os calafates, aos magotes,
De
jaquetão ao ombro, enfarruscados, secos,
Embrenho-me
a cismar, por boqueirões, por becos,
Ou
erro pelos cais a que se atracam botes.
E
evoco, então, as crónicas navais:
Mouros,
baixéis, heróis, tudo ressuscitado
Luta
Camões no Sul, salvando um livro a nado!
Singram
soberbas naus que eu não verei jamais!
E
o fim da tarde inspira-me; e incomoda!
De
um couraçado inglês vogam os escaleres;
E
em terra num tinido de louças e talheres
Flamejam,
ao jantar, alguns hotéis da moda.
Num
trem de praça arengam dois dentistas;
Um
trôpego arlequim braceja numas andas;
Os
querubins do lar flutuam nas varandas;
Às
portas, em cabelo, enfadam-se os lojistas!
Vazam-se
os arsenais e as oficinas;
Reluz,
viscoso, o rio, apressam-se as obreiras;
E
num cardume negro, hercúleas, galhofeiras,
Correndo
com firmeza, assomam as varinas.
Vêm
sacudindo as ancas opulentas!
Seus
troncos varonis recordam-me pilastras;
E
algumas, à cabeça, embalam nas canastras
Os
filhos que depois naufragam nas tormentas.
Descalças!
Nas descargas de carvão,
Desde
manhã à noite, a bordo das fragatas;
E
apinham-se num bairro aonde miam gatas,
E
o peixe podre gera os focos de infecção!
José Joaquim Cesário Verde nasceu em
Lisboa em 25 de fevereiro de 1855, morreu em Lisboa a 19 de Julho de 1886,
vítima de tuberculose. Filho de um
lavrador que se tornou negociante, passou sua curta vida praticamente entregue
aos interesses paternos, gozando no entanto de uma situação econômica
confortável que lhe possibilitava entregar-se a leituras que começou a fazer
cedo. Chegou a freqüentar o Curso Superior de Letras, sem estar presente no
ambiente literário assiduamente. Nessa época tornou-se amigo de Silva Pinto,
que lhe editaria um ano após sua morte o único volume de poemas: O livro de
Cesário Verde.
Podemos
apreciar a modernidade urgente da sua poesia, que cabe toda em 166 páginas
(reedição de Dom Quixote, com fixação de texto e nota introdutória de Joel
Serrão e revisão e notas de Jorge Serrão). Cesário Verde pode ter morrido cedo,
pode ter sido esquecido, pode ter sido uma das vítimas da sombra pessoana
projetada sobre quase toda a poesia portuguesa posterior. Continua a ser um dos
maiores poetas da língua. Cesário Verde é mais conhecido por causa do seu “Sentimento
de um Ocidental”, que a vulgata adotou como tema e transfiguração de uma Lisboa
de fim de século.
Em
1887, com uma tiragem de 200 exemplares, foi publicado pela primeira vez O Livro de Cesário Verde. Cesário é
mais um poeta do século XX do que do século em que nasceu, e a sua linguagem,
estilo, métrica, vocabulário, a concisão dos seus “alexandrinos originais e
exatos”, como ele diz, sagram-no como um dos inventores da língua portuguesa,
pois Cesário libertou a língua das amarras do lirismo piegas e do sentimento
exaltado, das teias de aranha do ideal parnasiano e do romantismo rendilhado.
Sua poesia se alimenta do prosaico, do concreto, do cotidiano. Poesia que muda os dias
finados do famoso spleen, essa vaga inquietação existencial, esse mal-estar,
essa indisposição, numa atitude estética que precede as interrogações e
angústias ontológicas da modernidade. Cesário usa o português sem “rodriguinhos
nem enfeites” (expressão portuguesa), usa a seriedade de uma língua sem lhe
roubar a riqueza. O
mais pequeno e simples, trivial e despercebido, passando pelos olhos de
Cesário, torna-se grandioso e complexo, especial e observado, objeto de
reflexão e fonte de inspiração. Cesário Verde conseguiu dar expressão poética à
realidade objetiva e cotidiana. Na sua obra, ganham beleza e sentido o cabaz da
hortaliça, os frutos, a madeira das árvores, os instrumentos de trabalho dos
carpinteiros, as ruas de Lisboa, as vitrinas das lojas, as manhãs atarefadas e
as noites alumiadas a candeeiros a gás. Tudo isto é tratado de uma forma
impressionantemente exata, numa linguagem simples, coerente e comum.
Poeta
da cidade, um dos maiores em qualquer tempo em qualquer língua, por isso mesmo
que genuíno, original, profundamente renovador, quer ao descrever os quadros e
os tipos citadinos, quer ao denunciar, em sóbrias palavras, as atitudes
subjetivas provocadas pela vida exterior.
Cesário
tem o culto da descrição, da contenção. A sensibilidade e a fantasia são nele
dominantes pela estética anti-romântica, pela reserva irônica, pela sábia
composição, pelo gosto de polir a frio os seus versos.
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